VII
Ele tem por mim uma amizade, água limpa e transparente em pedra de cachoeira, que não tenho por ele. Não me nego ao seu bem-querer, mas em certos momentos me incomodam aqueles seus sentimentos que são assemelhados aos de parente, coisas de primo, irmão, uma ligação que não se explica. João Bento Caetano é o seu nome, pomposo demais, luva maior que a mão. Talvez o nome Bento fosse, da tríade, o que mais lhe conviesse, mas ele faz questão de ser chamado pelos três, e assim é conhecido em toda redondeza. Coisa admirável, não vou negar. Alguns acrescentam o negro. Tentativa, parece, de diminuir a nobreza que o nome lhe confere. O negro João Bento Caetano já suado de muitas sacas de café corretamente dispostas nas barcaças, ao me ver, acelera os passos na minha direção, e, respeitoso para quem visse de longe, e íntimo no pequeno sorriso e no brilho e piscar do olho canhoto, vai rapidamente me passando a notícia, dando tudo já por certo e combinado, hoje tem baile dos pretos no porto da curva dos pretos. Retira-se então da minha presença assoviando como se nada tivesse falado, já vivendo a felicidade e as forças readquiridas no baile daquela noite que lhe duram por dias como disposição para a vida, ou para o trabalho pelo menos. Com certeza ele sabe das minhas esquisitices, e faz-se meu cúmplice no segredo que nem mais segredo é, de ir ao baile dos negros no porto da curva dos pretos, e no último porto do rio, tendo-me por importante, sem ser, freqüentar apenas o baile dos brancos no clube da cachoeira. Dou-me contra estes pensamentos, pedra de topada e de desorientação momentânea, surdo a todos os ruídos do cais, e logo ouço, passado o tempo do confronto comigo mesmo, apenas tendo entrado no escritório, o insano barqueiro gritando meu nome precedido do usual senhor, mais alto do que seria necessário, acrescentando o pedido, a ordem, de que não demorasse com a carta, pois que já ele ia descer o rio.


