08 Dezembro 2009

O último porto do rio

VII

Ele tem por mim uma amizade, água limpa e transparente em pedra de cachoeira, que não tenho por ele. Não me nego ao seu bem-querer, mas em certos momentos me incomodam aqueles seus sentimentos que são assemelhados aos de parente, coisas de primo, irmão, uma ligação que não se explica. João Bento Caetano é o seu nome, pomposo demais, luva maior que a mão. Talvez o nome Bento fosse, da tríade, o que mais lhe conviesse, mas ele faz questão de ser chamado pelos três, e assim é conhecido em toda redondeza. Coisa admirável, não vou negar. Alguns acrescentam o negro. Tentativa, parece, de diminuir a nobreza que o nome lhe confere. O negro João Bento Caetano já suado de muitas sacas de café corretamente dispostas nas barcaças, ao me ver, acelera os passos na minha direção, e, respeitoso para quem visse de longe, e íntimo no pequeno sorriso e no brilho e piscar do olho canhoto, vai rapidamente me passando a notícia, dando tudo já por certo e combinado, hoje tem baile dos pretos no porto da curva dos pretos. Retira-se então da minha presença assoviando como se nada tivesse falado, já vivendo a felicidade e as forças readquiridas no baile daquela noite que lhe duram por dias como disposição para a vida, ou para o trabalho pelo menos. Com certeza ele sabe das minhas esquisitices, e faz-se meu cúmplice no segredo que nem mais segredo é, de ir ao baile dos negros no porto da curva dos pretos, e no último porto do rio, tendo-me por importante, sem ser, freqüentar apenas o baile dos brancos no clube da cachoeira. Dou-me contra estes pensamentos, pedra de topada e de desorientação momentânea, surdo a todos os ruídos do cais, e logo ouço, passado o tempo do confronto comigo mesmo, apenas tendo entrado no escritório, o insano barqueiro gritando meu nome precedido do usual senhor, mais alto do que seria necessário, acrescentando o pedido, a ordem, de que não demorasse com a carta, pois que já ele ia descer o rio.

01 Dezembro 2009

O último porto do rio

VI

Estranhamente ganho ânimo, uma mescla de tristezas e alegrias, quando alcanço a rua e atravesso os movimentos característicos do dia que amanhece. Tento entender, não entendo, sinto, talvez. Se latem os cachorros nos quintais, os rumores interiores forjam um assovio sem graça, de melodia repetitiva em meus lábios. Quem me vê passar até pode pressupor ali um homem pacífico e reconciliado com seus rumos. Se nas portas as crianças pequenas choram, se águas são arremessadas das janelas das cozinhas, se um cheiro de café e esgoto se levanta forte no ar aquecido pelo primeiro sol, acelero os passos sem perceber, quase correndo, como a levar uma boa e inesperada notícia para os barqueiros. Se dálias brancas brotam de terreno lodoso e dobram-se sobre cercas de madeira, a vida, a minha, se vai resvalando do destino que devia ser. Ser feliz. Bem vestido, altivo, sigo para o armazém no porto do rio. Sapatos bem engraxados, meias limpas resguardam-me de ver aquele alheio pé preto. Esqueço-me dele e me encorajo para o trabalho. A gritaria dos barqueiros acertando suas cargas, e que logo, sem demora, vão pelo rio abaixo, redescobre dos meus ouvidos uma voz, a própria, mansa, insistente que diz quase com entusiasmo juvenil, junta-te aos barqueiros, abandona este porto decadente, desce para o porto do mar, procura a mulher que te pede as cartas, viva a vida que se abre à tua frente. Esconderei dela o pé negro, depois, se um dia ela descobrir terei um argumento bem pensado. Ela com certeza se faz de pele branca, faces rosadas e cheira a água de colônia parisiense. Mas quem me pede as cartas eu não sei. Bem que acho que me engano, mas é insistente nas voltas da mente a esperança de que seja tal mulher. Há outro engano aqui, não sou eu este que me construo nas ilusões das cartas escritas, com olhos melancólicos, nos intervalos entre o rio que vai e o branco da folha de papel.

29 Novembro 2009

O último porto do rio

V

Acordar, sinto saudades dos dias em que acordar era o natural abrir dos olhos e da alma para o milagre de viver. Agora acordar é dar-se com um sufoco no peito, uma pressa e um pulo, mesmo aos domingos e dias santos. Acordar com a alma deslocada, um vago no lugar deixado, uma dor inexplicável. Em tal situação não há outro jeito senão esperar que o banho frio, o café, o abrir da janela, a escuta de barulhos comuns do quintal, da mata ao fundo, convençam a alma a reocupar o correto espaço no peito. Acordo, mas me engano, o dia ainda não amanheceu. Estou estirado sobre a cama, vestido com as roupas, o peso e a poeira do dia anterior. O lampião aceso ilumina o buraco do deslocamento da alma. Que sofrimento é este, deslocamento de alma, dor que dói mais que luxação de ombro, de dedo polegar. Com um pé forço o sapato do outro e arranco-o. Repito o processo e o outro cai ao chão. Usando o mesmo procedimento retiro as meias. Esqueço-me do pé direito, negro, diferente de todo o resto do corpo branco e vejo-o. O lampião aceso ilumina o pé direito negro. Apavoro-me, tento escondê-lo, não sei o que fazer, mas sei, logo me enfio debaixo do lençol. Esquento-me de umas brasas e ardências de calor, os minutos viram o inferno e entornam seu fogo sobre meu corpo, dou um salto, retiro toda a roupa, exponho-me à própria nudez, volto para a cama e cubro somente o pé direito.

28 Novembro 2009

O último porto do rio

IV

Na medida em que os passos me fazem próximos de casa, quando na noite escura os cheiros são visíveis, o que se aproxima na verdade são recordações. Recordações insignificantes, nenhum acontecimento merecedor de vanglória. Uma esperança vã aqui, uma ilusão bonita acolá, uma casa abafada e um cheiro de mofo depois da porta. Pegar uma barcaça e descer o rio, quem sabe arranjar um novo emprego no porto do mar. Virá, logo mais, no meio da manhã, o insano, gritando e pedindo a nova carta. Escreverei que abro os braços como asas e rodo no pequeno espaço de liberdade que o círculo consagra. Tão hábil no uso das coisas da casa no escuro, agora tropeço na busca do velho lampião, meu Deus! Encontro-o, acendo-o, nem sei mais o que pretendia fazer com a luz, jogo-me na cama e desisto de levantar para apagar a chama. Dormir, no entanto não durmo logo, o cansaço é que me vence.

27 Novembro 2009

O último porto do rio

III
Ir para o bar é ir para lugar nenhum, onde, suponho, apesar de me enganar algumas vezes, uma mão pesada não me apertará o peito. Ali me caem certas palavras para as cartas que escrevo sem saber para quem. Ficar ali entre uma dose e outra reverte o poderoso fluxo do mundo, força o nada. É nadar em suas águas frias como se fossem mornas. As horas ali também passam, claro, mas a lâmina é tão fina e incisiva que o tempo sangra, e, nem se percebe que há um corte. Depois, quanto tempo não sei, ao voltar para casa, fica o bar ali como se nunca tivesse existido.

25 Novembro 2009

Logo mais retomo a atualização do blog.
Por enquanto fica o meu abraço para
aqueles que por aqui passarem.

21 Novembro 2009

O último porto do rio
II
No pequeno escritório num mezanino no armazém principal do porto é que escrevo as ditas cartas. Retiro delas o bem e o mal. Nelas me ocupo por um tempo, quando, acho, me permito ser o que não sou, ou, quem não sou. Não tenho tido tanto trabalho como em outras épocas. Muitos tropeiros concorrem com as barcaças no transporte do café, e poderá ficar ainda pior quando o governador concluir a estrada para caminhões. Mas se gasto tempo com as cartas, sendo sincero, nem é tanto tempo assim. A maior parte do tempo que passo é olhando da janela para o rio e pensando pensamentos de futuros, outros, diferentes daqueles que vão se abrindo diante dos meus passos. Nas últimas cartas, pelos rascunhos que releio, percebo, ando forçando a alegria. O resquício desta empreitada se manifesta no tom de voz levemente alterado que surpreende os barqueiros e carregadores de sacas de café, sempre acostumados ao meu modo controlado de lhes dirigir a palavra. Quando dou por encerrado o dia já em noite fechada, como se tivesse trabalhado mais do que trabalhei, vou para o bar. A cada noite as ruas revelam-se em pesos turvos nos passo que dou. Ainda seria tempo.

20 Novembro 2009

O último porto do rio

I

Há aqui agora, sem horas para chegar, um barqueiro que vem quando nunca se espera, e me impõe cobranças de umas cartas. Do cais grita impertinente, me chama de senhor, e exige que lhe entregue sem demora as malditas cartas. Fico em dúvida se não deveria chamar-lhes benditas. Fala-me como se me fizesse um favor, eu que tenho que descer ao cais, mal me toma os envelopes e atira-os dentro de uma bolsa velha de couro sem me olhar, voltado que está para os seus afazeres, os que lhe são importantes. Lido com registros, todos sabem, do que chega e do que sai neste ultimo porto no rio, tudo tenho que por no lápis, sem esquecimentos, desonestidades ou distrações. Cobra-me tão seguro as cartas o sujeito, talvez, por me tomar por quem não sou, e como parece sempre muito apressado, não me ouve as explicações ou tentativas. Também não distingo por qual grito por dentro, mais forte do que o deste endoidecido que sobe e desce nas barcaças, é que me dobro sobre a mesa e deixo ir este rio de insignificantes e pulsantes desejos de dizer o que me são loucuras, anseios de lucidez, vesgos modos de olhar.

14 Novembro 2009

vertere seria ludo XIII

Tarde após tarde é o seguimento
de tentar desenhar casas
numa pradaria longe desabitada.
O franzido do sol caindo

sobre o olhar

evoca a matéria verbal
na qual se converterá
a luz do desenho. Além de que
entre outras regras

a ramagem da brincadeira

deverá atravessar o deserto.
Todavia, sabe-se, ele é demorado,
e o que se dá a encontrar ali será,
talvez, pela linha que se encaminha

pela esquerda da paisagem onde

ruas em luas crescentes
seguem pela noite de novas cidades
e depois avançam
pelos quadros de Escher.

12 Novembro 2009

vertere seria ludo XII

Pode ser que a vida
se faça de duas metades:
uma consiste em tornar-se,
a outra em inventar

novas sensibilidades

para cada respiro. Cair,
fora do próprio destino,
quando acontece, acontece,
e se vai onde

não se queria ir. O muro

é alto demais, constatam.
Preso, o desejo de asas
se desfaz pelo chão mesmo,
ao som de latidos. O cão

tem o pior grito. No entanto,

a idéia forma um repuxo
e um amarrotado movimento
no desejo antigo: sair por aí,
se reencontrar, e ver no que dá.

11 Novembro 2009

vertere seria ludo XI

Os dias, frágeis louças do serviço
do prazer, se contam em somas
de prejuízos. Jogo que se impõe
viver, a se querer ou não: lançar

pétalas ao fogo até restar a haste

nas mãos. O limite do número de pétalas
tornar-se-á sentido e significado quando,
por entre as equações de rosas desfeitas,
se levantar em geometrias lindas

o inumerável amor. As pétalas se vão

ao fogo, a haste guarda-se no bolso.
A espionagem amorosa dos entendimentos
dos segredos desenhados na louça,
não desprezará, no cômputo geral,

o peso do perfume.

09 Novembro 2009

vertere seria ludo X

O peso de uma pedra
se dissipa (há uma chance)
na luz de um olhar.
Pégaso atravessa a tarde

em corpúsculos invisíveis.

Quem irá cavalgá-lo não
será a pergunta, mas
como abandonar-se ao seu voo,
pela densidade de cada coisa,

de cada dia. Não restará

da transparência um vidro estilhaçado,
o tédio. Há de ser (espero)
o dia comum um imenso livro
amarelo, o tratado da dança

e do canto, aberto na página que versa

sobre a teimosia deste jardim resseco
que naquela rosa se transubstancia.

08 Novembro 2009

vertere seria ludo IX

Um ciclo de gritos, fracassos, ensaios
de admiração do belo e espanto: códigos
ainda, poemas depois. Alguns cães
ladram diante do hábito amarelo

do monge do farol que vai (ou que vem).

Lâmpadas, labaredas, amor
criam luzes, sinalizam rumos
e mares a se navegar. Se há
uma ventania nos lados de dentro

o vento é um impulso

para a cor dourada do sol. Viver,
invenção de fazer resumos de mares,
pedras, flores, átomos num
rubro mundo pulsante no peito.

O jogo de entendimentos das coisas

firma-se em letras e no preço de dizer
cada uma pelo doce do nome. Espinhos
e vinhos são barcos que passam. Um traço
no fim de tudo mistura no mesmo vaso

o auge do voo das gaivotas e das constelações.

07 Novembro 2009

vertere seria ludo VIII

Uma fragata produz poesia
nos temporais e tempestades
com uma porção de prazer
e outra de sustos. Viver é

cair num abismo, e amar

é o sentido oposto, subir.
O abismo permanece, todavia.
No transverso da sede de falar,
a música ensina o que ainda

não se sabe, ouvir. O fundo

do fundo do coração deve ser escuro,
com pequenas e preciosas luzes,
onde é provável se encontra o verso
que mansamente constrói estrelas.

06 Novembro 2009

vertere seria ludo VII

De qualquer modo é melhor
um trovão de susto e descobrir
o dia, ainda que tarde, do que
acompanhar a sombra do tempo

e ajudá-la a barganhar seus mofados pães

com os chacais. A coragem não virá
dos lamentos em fins de outono
sobre a bondade da palavra renasço
que não foi usada na frase do amanhecer.

Enxergar será lindo, a flor

surgiu do chão resseco, e é única.
A balança que pesa o coração
é regida pela mesma matemática que soma
a claridade, o calor (amor) e a leveza

na longa(?) viagem dos raios do sol.

05 Novembro 2009

vertere seria ludo VI

O que vale no acúmulo
é o tesouro
que do monte foge.
Amontoar só vale

pelo riozinho que

por entre os montes corre.
Beber sua água,
correr por suas margens,
descer nas corredeiras

faz uma riqueza por

dentro, entre os amargos
de viver. Dá um estalo
de desprendimento
soltar do bambuzal

a poesia que jamais foi pega

pelas palavras que por aqui se acham,
ossos descobertos pelos ventos.