Uma possibilidade
Um silêncio grande veio sobre mim
como um espírito ou algo assim que desce.
O que falo, quando falo, me custa,
estabeleço prejuízos irreparáveis,
gasto fortuna que não tenho.
Não há sabedoria, nem escuridão, só mudez.
Um anúncio me foi confiado,
mas recolho o impulso que me formaria a voz.
Guardo o ar que respiro para o que sinto,
algo como amar por amar e rir por viver.
Fez-me o silêncio um estranho,
mas me acostumo assim, outro feito de mim.
Fico fora de um eixo, alterado, crucificado sem dor,
grudado em lentidão nos instantes,
hipnotizado pelas insignificâncias do cotidiano.
Ao mesmo tempo vôo, pássaro ligeiro,
asas com penas levíssimas de prata,
para talvez pousar sobre o girassol de um dia diferente.
Me deixe assim, em silêncio, não me tente animar;
há uma possibilidade de não ser tristeza.
19 Maio 2008
16 Maio 2008
15 Maio 2008
Jogado rio abaixo
Eu não tenho canoa;
agora eu não tenho.
Minha canoa foi despedaçada
e eu fui jogado rio abaixo.
Eu não me salvo
senão por um tronco de árvore.
Nele também uma cobra se vai.
(pelo menos por enquanto)
Deixo-a
num canto
(pelo menos por enquanto)
e danço
como se a vida
jamais
fosse acabar
comigo.
14 Maio 2008
Aos pés da montanha
Está ali no norte a montanha de-onde-avisto-longe.
Cresce o trigo que plantei como um sonho
nos campos férteis que se estendem
no sopé da querida montanha.
Há na vila uma linda menina, minha noiva.
O oficial acordou-me, chamou-me
... e me mandou para a guerra.
Ao sul ficou a montanha
e os sonhos que avistei.
12 Maio 2008
E eu respondi sou um olhar
Tu me perguntaste quem sou
e eu respondi sou um olhar.
Sem compreender perguntaste quem sou,
eu respondi um olhar de olhos sonolentos
que enxerga menos e vê o que não se vê.
Em maior inquietude quiseste saber quem sou.
Sou um olhar de olhos franzidos, fixos, perdidos,
que transita entre a altivez do vigia
e o sonho do aguardador de auroras.
Ainda com mais realce perguntaste quem sou,
eu como um menino em brincadeiras
ou um homem apaixonado em carinhos
disse que sou um olhar de olhos semiserrados
que procura uma poesia,
aquela que foge da luz em demasia,
se esconde dos olhos que espiam tudo
e se distancia do olhar capcioso, interesseiro,
apegado à superfície plana dos panos.
Tu me perguntaste e eu respondi sou um olhar
que escorrega pela tua pele, enxerga os poros, grãos de pólen
das flores que ainda vão crescer nos ocultos jardins
do teu veludo, caminho, porto.
Meu amigo, amiga,
se você se dispusesse a continuar escrevendo
depois do meu primeiro verso, de que modo
o faria?
Tu me perguntaste quem sou
e eu respondi sou um olhar.
...............................................
Obrigado.
10 Maio 2008
O destilado frutal dos pensamentos
Ando dirigindo sem ouvir música.
Mãos no volante,
asas prontas pra me soltar e pensar.
Estou cansado dessa invasão,
sons que ouço como por feitiço,
radio, CDs, malditos, até sem gostar.
Sondo-me e quero ouvir a música
que se executa em mim enquanto penso.
Desato a andar por ai, a seguir meus pensamentos
pelas ruas e avenidas, pelas pontes da cidade enfeitiçada.
Eles falam, falam e enquanto falam, dançam.
Acreditem, meus pensamentos dançam.
Dançam por uma música que nao ouço.
Dançam e planejam vôos sobre os campos
e empreitadas no mar;
constroem estradas e escrevem histórias;
dançam bonito, num ritmo alegre, até feliz.
Mas a música que me compõe,
a música do meu pó e do meu ar
dos meus oceanos e dos meus vulcões,
que faz dançar meus pensamentos
...não ouço.
Há uma esperança,
quero ver se encontro, depois da terceira ponte
no alto do monte, um pensamento mais forte,
uma emoção, um rompante, uma sacerdotisa
que me espete em circuncisão a língua
e exponha o rubedo, o silêncio da vida em sangue
e me permita desgrudar do céu-da-boca
o destilado frutal dos pensamentos,
a salmodia do meu próprio coração.
09 Maio 2008
Abrir uma brecha
Quando eu te amo... já amei
e o amor... foi. Tu passaste e eu também.
Seres perecedouros, sem presente, presos numa interrupção;
um acidente entre mentes, entre tempos.
Voltarei a te amar, sempre, pois que sobrevivo quando amar.
Mas já não sou, fui, já não amo mais.
O amor... é outro. Amarei novamente.
O amor parece ser assim como o que escrevo aqui: gesto.
Movimento de mãos, pensamentos passageiros, olhares viajantes.
O jeito é inventar amor, criar amor, fazer um para cada momento,
e se alegrar e forçar a vida a abrir uma brecha cada vez maior
entre a estrela que nasceu e a que explodiu.
Forçar, forçar, forçar o absurdo, o milagre
entre o nada e o nada a mais
08 Maio 2008
Se anda
Palavras
são marcas que ficaram
de passos que já vão longe
noutro caminho.
Não se faz poemas,
se anda.
... só isso.
05 Maio 2008
Destempero de quietude mineral
O tempo lento se ia, escorria,
vazio como se voltasse
e me causava na sombra da casa
e ao mundo que me cercava
um destempero de quietude mineral.
O sol queimava tudo naquele janeiro e meio dia;
o infinito céu variava, febril, de tanto azul;
o calor, o refrigério da sombra, o silêncio
me hipnotizavam com o prazer de não sentir
necessidade de gesto, nem de palavra, nenhuma.
Só havia, absoluta, libertadora, uma realidade
como uma imensa e transparente nave espacial
sobre as pessoas, as galinhas, o curral, o pomar
e quebrava em refração a luz como a água
quebra o raio do sol numa prateada bacia.
Ah! Uma única coisa era imune e rompia
com a aquela sedutora e profunda imobilidade.
Foi nele que me agarrei com um canto de olho,
desesperado, afundando no brilhante lago.
Ele me salvou. Um gato... que se lambia.
30 Abril 2008
Caminhos e escolhas
À tardinha quando a luz do sol vira tristeza
dei de cara com um passarinho,
um pequeno de peito amarelo,
parecia que ia falar... de tão perto.
Olhou-me pelos olhos adentro
e mais do que devia descobriu
o que eu não sei... ou o que sou.
Desviou o olhar e se foi em retirada.
Eu, cá, que fiquei, não compreendi
que sorte de amor ele me ia falar,
pois de amor só podia discorrer
um de peito amarelo, ave tão pequena,
que de resto, de resto, além das penas,
ele só era mesmo um coração a bater... ou a olhar.
Mas um outro de peito azul logo se aproximou
e me olhou chilreando o que compreendi
como se com voz acabasse de falar.
Chamou-me de tolo e me mandou escutar
os porcos que de fome grunhiam ao me redor.
Pensei, quer saber de uma coisa,
vou-me embora para o Wyoming.
Agarrada na garganta
Há uma palavra aqui
bem aqui,
agarrada na garganta.
Já falei o que penso
mas ela não saiu.
Já falei o que sinto
ela não saiu.
Já gritei e pigarreei,
nada aconteceu.
Já rezei um Pai-nosso
e ela nem se moveu.
Escrevi isto aqui
e ela nem se tocou.
Não me dói, nem me incomoda
só me provoca e me incita
a escrever outra palavra.
Mas outra agora é que não quero.
Se eu beber água ela vai ver...
Amanhã sem ninguém saber
vou mijá-la... e não direi
absolutamente nada.
Um fio de...
Estou com preguiça,
uma preguiça danada,
uma vontade de nada. Fazer?
Fazer o quê? eu não planto soja;
eu não planto coca; eu não planto cana.
Eu cato sementes na estrada do porto.
Mas ando pensando em plantar
uns pés de algodão.
Eu preciso de um fio.
Preciso fazer alguma coisa, eu sei.
Resistir e fazer é ser solidário,
é até ter prazer
com aqueles que ainda nascerão
depois que eu morrer.
Estou com preguiça,
uma preguiça danada,
uma vontade de nada. Fazer?
Fazer o quê? Acho que ainda acredito em saídas,
por isso essa idéia de plantar
uns pés algodão.
Eu só preciso de um fio.
28 Abril 2008
... e quando digo
Sou infeliz.
Mas posso dizer,
escuta: Sou feliz.
E quando digo sou feliz,
sou feliz
Sou infeliz
pois há muita coisa ruim
por ali no mundo
e por aqui em mim.
Mas posso dizer,
escuta: Sou feliz.
E quando digo sou feliz,
sou feliz.
Sou infeliz
pois não sei bem ainda
ser feliz.
Mas posso dizer,
escuta: Sou feliz.
E quando digo sou feliz
estou compondo um poema
que nenhum infeliz sabe compor.
24 Abril 2008
Fim do coração
Preciso construir uma estrada
bem larga
que vá do meio da testa
até o fim do coração.
O fim do coração fica logo ali
onde dói
virando à esquerda
depois do amor
que perdi.
22 Abril 2008
Da mesma cor, outra dor
Será a cor a dor da flor
de se sentir só e viver tão pouco
para disfarçar e esconder a semente
dos devoradores de grãos?
A semente sim, parece, vive e geme sem medo
de cair na farra do vento e dançar na terra,
talvez lutar contra os escuros do chão
ou com eles tramar arranjos e barganhas
e partilhar segredos da vida e arcanos
até quando esgotada em orgasmos
rompida e livre das cascas
puder desaparecer no tempo
de uma outra flor da mesma cor,
outra dor.
18 Abril 2008
Me alivio precariamente com olhares
Pelas aflições de saudades
embarco num navio qualquer,
velho, sem reparos, como um fugitivo.
O mar me força a dizer qualquer coisa
ou a cantar um hino doce à Mãe de Jesus,
Senhora de quem sai pra navegar.
O pior, meu amigo, acontece:
por não saber cantar, nem saber o que falar
ele me rejeita, me mareja, me salga,
me balança, me lança de novo na praia.
Recolho molhadas as aflições
aquelas que vou aprendendo a levar
e semeio, pelas trilhas da ilha,
aquelas que imagino sejam sementes,
embora não saiba de quê.
Assim mesmo semeio, amigo,
pois o gesto é arte de amar, talvez.
Com as outras vazo para o outro lado da ilha
e subo num ponto bem alto, arrastando-as,
e me alivio precariamente com olhares,
destes que a gente olha, olha, olha
sem saber para onde olhar.

